"Sempre quero mais do que vem nos milagres." (Clarice Lispector)

Domingo, Agosto 07, 2005

Solidão, mas nem tão essencial assim...às vezes não consigo me entender, às vezez vem o medo de estar sozainha e nao ter certeza de ser só no ambiente. Ficar só faz com que nos deparemos consigo mesmos e daí temos de nos haver com o descoberto. Outrasvezes a constatação de que a solidão é só por fora vem e eu nem sabia mais como era isso: estar sozinha por fora mas não por dentro. Muito mais corriqueiro estar junto por fora, e sozinha por dentro. Hoje achei bom e ocupei o tempo tentando controlar minha ansiedade pela urgência da vida. Que está acontecendo mas ultimamente tem sido dificil me situar nos lugares, como se deles não pertencesse. Outro dia algumas pessoas queridas falavam de coisas vividas, que pra mim são apenas sonhadas ainda, e descobri que naquele lugar "lá" terei me achado e deu medo. Medo de não chegar nunca a este lugar. Raiva, nem sei de quê. E não sabia se chorava ali mesmo ou se saía pra chorar e com o aval de uma criança que quase pareceu me entender, escolhi sair. Pronto, meia duzia de lágrimas, alguns soluços silenciosos e voltei. Sem dor, só com a raiva. Imagino que deve ter uma razão muito boa pra eu não ter chegado "lá" ainda, e quero acreditar na bondadede Deus nisso. Sei que chegarei metade sozinha, mas quando foi absolutamente diferente disto?
E nesta urgência toda não sei como fazer pra que o vulcão que mora em metade de mim não cause estragos...o analista que o diga! E só resta esperar compreensão, que procuro no outro mas não dou a mim mesma.
"Suponho que me entender não seja uma questão de inteligência, mas sim de sentir, de entrar em contato. Ou toca, ou não toca..." (Clarice Lispector)

Sexta-feira, Julho 15, 2005

Eu que andava nessa escuridão...de repente foi me acontecer...me roubou o sono e a solidão, me mostrou o que eu temia ver. Sem pedir licença nem perdão, veio louco pra me enlouquecer. Vou dormir querendo despertar, pra depois de novo conviver, com esta luz que veio me habitar, com este fogo que me faz arder...me dá medo e vem me encorajar...

Ando escravo da alegria, hoje em dia minha gente isto não é normal
Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval!!

(Escravo da Alegria - Toquinho)

Agora é assim, sinto como se tivesse um blog vivo, rsrs, tem sido alguem que ouve minhas historias, com quem viajo, sonho e divago sobre as incongruências todas...as contrariedades, os sonhos, os quereres, com quem combino...daí venho aqui avisar que tudo está acontecendo, por meio de textos, musicas..e tem cheiros tb! Será que os blogs terão tal tecnologia um dia? Ai, ai...eu e o "mundo de Bobby". Assim, fala de amor, a pessoa clica e vem um cheiro...fala de dor...outro cheiro...fala de risos, quase daria pra se ouvir...
Bom, bom mesmo é viver e tocar e sentir cada coisa boa da vida. Saber nos acrescenta mas nem sempre comove e é isto que quero: emocionar-me e apaixonar-me todos os dias!!

Quinta-feira, Maio 19, 2005

Sobre coisas malcheirosas

Assim como Rubem Alves, neste texto fedidinho, peço desculpas, pois gostaria de escrever sobre coisas bonitas e cheirosas...mas os acontecimentos da ultimas semanas me fazem postar sobre seres quase humanos.


Melanie Klein é uma famosa psicanalista que teve idéias insólitas. Dentre elas, a sugestão de que nossos processos mentais se parecem com os processos fecais e urinários. A cabeça de todo mundo se parece com os intestinos e os rins: produz fezes, urina e gases fétidos explosivos. Não há exceções. Todo mundo. Crianças, jovens, senhoras, juizes, freiras, cardeais. A educação, à semelhança do que acontece com as crianças, nos ensina a nos livrar desse lado malcheiroso e venenoso dos produtos mentais de maneira própria, nos lugares certos. A gente não deseja que os outros sintam o fedor dos nossos pensamentos.Mas acontece que certas pessoas não aprenderam a fazer isso. Não conseguem controlar seus esfíncteres mentais. Isso, acrescido do fato de que seus processos mentais produzem excrementos em excesso. A fermentação decorrente eleva a pressão interna a níveis cada vez mais altos e, de repente, sem razão aparente, a coisa explode com grande barulho e fedor: Bum! O corpo inteiro se transforma num mecanismo excretor. Saem fezes, urina e gases fétidos por todos os lados: pela fala, pelos olhos, pelo rosto, pelas mãos, pelas pernas. A pessoa se transforma, literalmente, naquilo que ela está expelindo. E não adianta argumentar. De que me adiantaria dizer a uma pessoa com diarréia, as fezes escorrendo pelas pernas, que ela não deveria estar fazendo aquilo? A força das fezes é maior que a força da razão. Uma pessoa em tal estado ‘parece’ estar falando coisas. Na verdade ela diz coisas: ofensas, mentiras, grosserias, inverdades, obscenidades. Quem ignora os mistérios intestinais da mente pensa que suas palavras exprimem pensamentos. Mas ela não está pensando. Suas palavras não são palavras. São fragmentos de fezes explosivas e jatos de urina envenenada. Daí ser inútil argumentar. Só há uma coisa a fazer: esperar o fim da expulsão dos excrementos mentais.Passado o vexame das fezes moles e fedorentas escorrendo pelas pernas a pessoa fica aliviada. Aí ela toma um banho, fica limpinha, põe perfume e desodorante e comporta-se como se nada tivesse acontecido. Está feliz. Livrou-se dos seus venenos. Mas o mesmo não acontece com aqueles que foram alvo da explosão. As fezes e urina mentais são diferentes: elas grudam, agarram, igual a Superbonder. Inúteis os processos físicos e químicos de limpeza. Não há banho, sabonete, detergente ou bucha que resolva. Só há um jeito: é preciso digerir tudo! Eis aí a forma moderna, psicanalítica, do antigo crime de ‘merda-à-boca’ que mencionei.Mas não há ninguém que goste de comer merda e beber urina, ainda que seja de uma pessoa querida. Faz-se isso por não haver outro jeito. Aí o ódio vai crescendo devagarzinho, devagarzinho... E chega um dia em que o volume e a pressão das fezes e urinas engolidas atingem um ponto tão alto que nenhuma cabeça é capaz de contê-los. Aí acontece a explosão. E tudo começa de novo...Escrevi isso contra a vontade porque desejava escrever sobre rosas. Mas não tive alternativa. Há momentos em que é impróprio dar rosas de presente. Que adianta perfume por fora se há fedentina por dentro? (Correio Popular, Caderno C, 10/12/2000.)

Domingo, Maio 08, 2005

Aqui está Adélia Prado, como muito bem recomendado por esta querida, e mais do que apropriado.

Para o Zé

Eu te amo, homem, hoje como toda vida quis e não sabia, eu que já amava de extremoso amor o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos de bordado, onde tem o desenho cômico de um peixe com os labios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero e so dizer te amo.
Teco as curvas, as mistas e as quebradas, industriosa como abelha, alegrinha como florinha amarela, desejando as finuras, violoncelo, violino, menestrel e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que e, a carne de que e feito, amo sua materia, fauna e flora, seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas perdidas nas casas que habitamos, os fios de tua barba.
Esmero. Pego tua mao, me afasto, viajo pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
"Dize-me, oh amado da minha alma, onde apascentas o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu nao ande vagueando atras dos rebanhos de teus companheiros".
Aprendo. Te aprendo, homem.
O que a memoria ama fica eterno. Te amo com a memoria, imperecivel.
Te alinho junto das coisas que falam uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece, tira de mim o ar desnudo, me faz bonita de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega, me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando os panos, se alargando aquecido, dando a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo, o que não queria dizer amo também, o piolho.
Assim, te amo do modo mais natural, vero-romântico, homem meu, particular homem universal.
Tudo que nao e mulher esta em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,a luz na cabeceira, o abajur de prata; como criada ama, vou te amar, o delicioso amor: com agua tepida, toalha seca e sabonete cheiroso, me abaixo e lavo teus pes, o dorso e a planta deles eu beijo.

Sexta-feira, Maio 06, 2005

Resposta ao tempo

"Ha folhas no meu coracao
E o tempo...
Diz que somos iguais, se eu notei
Pois nao sabe ficar, e eu tambem nao sei
...Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixoes
Eu desperto
E o tempo se roi com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver
No fundo e uma eterna crianca..."

O pobrezinho lutou a vida toda comigo e agora sou eu que o questiono, que o busco, que o quero perto e longe...Que nele ponho esperancas, que dele tenho raiva, de quem o ama cobico a paciencia. Nele acredito, e nele me desespero por vezes. Nao aguento a distancia de alguem, que o tempo nao traz. Torco pra que ele fique um pouco mais enquanto nao posso deixar aos outros. Peco a ele perdao pelas minhas urgencias..urgentissimas, mando-o embora pra longe, o xingo o repudio, o conto regressivamente como quem atura um papo ruim. Peco que me deixe um pouco mais...
E sofri o dia todo de uma dor que me queimava o estomago. Ainda nao a entedi..so o tempo.
E deste lado aqui esta a eterna crianca.."mae, to com dor de barriga..posso 'nao ir' hoje?"
Nao...voce tem que ir e aproveitar...o tempo.

Domingo, Maio 01, 2005

E o milagre acontece todos os dias...Milagres novos, e os ja vistos, como este blog, vem agora como cenas que tem-se a impressao de ja terem acontecido. Mas a sensacao do novo, no ja visto, eh permanente, eh boa, porem traz um "que" de quero ver mais um pouco, quero viver mais um pouquinho do ja vivido, e a novidade atropela o coracao e a alma, que so cresce, so se engrandece com a experiencia. Aqui estou eu, de novo, e ja nao sei dizer se este "novo lugar ja visto" sera investido como o outro, porem acontecera, como a existencia: como tiver de ser.